"Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá" Salmos 37:5
Postado em 27/01/2006
Pescando na ceva
LUIZ CARLOS HAULY

Pescador manhoso prefere a esperteza às complexas técnicas de atração e captura de suas presas. Por isso, recorre à ceva, o artifício de atrair os peixes a um determinado local do rio ou lagoa por meio da colocação sistemática de alimentos. Pão velho, legumes, restos de comida, minhoca - tudo é válido, mas o mais recomendável é o milho verde.

Uma das poucas coisas do PT que resistiram ao escândalo do mensalão-caixa2 é a idéia sobre sua eficiência eleitoral em contraposição com sua incapacidade administrativa. Esse conceito deu origem à anedota de que a primeira reunião do PT após uma vitória eleitoral é para discutir o que fazer para ganhar a próxima eleição. Felizmente, os petistas não têm tido todo o sucesso que o imaginário popular lhes atribui nesse campo...

A incompetência administrativa do governo Lula ficou amplamente demonstrada nesses três anos de jornada petista no comando da República. Os macroprojetos – Fome Zero, espetáculo do crescimento, salário mínimo com o dobro de seu valor real, criação de 10 milhões de empregos – revelaram-se puro bla-bla-bla. Junte-se isso ao “espetáculo da corrupção” que sepultou de vez a ética que o partido prometia impor ao trato da coisa pública e temos a combinação administrativa mais desastrosa desde a redemocratização, lá se vão 20 anos.

Apesar disso, por se considerar o bam-bam-bam do voto, Lula – que trabalha pela reeleição desde 1º. de janeiro de 2003, quando tomou posse – está agindo como o pescador maneiroso do início deste artigo. O presidente procura de todas as maneiras compensar seu desconhecimento da arte de governar recorrendo à ceva eleitoreira, julgando que, dessa maneira, irá atrair os incautos eleitores para sua rede.

Milho verde daqui, minhoca dali, e eis que nosso presidente – que nos último semestre de 2005 chegou ao cume da cordilheira da rejeição – surge da noite para o dia como candidato viável à sucessão de si próprio. Pelo menos foi o que informou recente pesquisa do Ibope encomendada pela revista Istoé.

Como interpretar essa súbita ressurreição da popularidade presidencial? É fácil: basta examinar os ingredientes da ceva que ele está fazendo no rio turvo da eleição presidencial e combinar essa artimanha com a operação despiste articulada por ele e seu séquito. Operação que tem o Congresso como principal bode expiatório – ou boi-de-piranha, como seria mais adequado ao contexto.

A estratégia aproveita-se do fato de que as investigações sobre o mensalão-caixa 2 não produzem mais fatos novos. Assim, desanuviaram-se as nuvens da corrupção que pairam sobre o Planalto e seus subterrâneos e anexos.

A acintosa “Operação Tapa-Buraco”, os discursos palanqueiros do presidente, a maquiagem dos números do Orçamento para iludir o eleitor sobre o verdadeiro montante de investimentos feitos pelo governo, equivalente a um terço a menos do que será apregoado durante a campanha, o pagamento antecipado da dívida junto ao FMI – isso (e muito mais) visa a criar um clima de oba-oba, com reflexos claros, e positivos, sobre a desgastada imagem presidencial.

Na outra frente, o Congresso foi apontado neste início de ano como o maior vilão da cena política. Deputados e senadores, excetos os membros de algumas comissões, fomos convocados extraordinariamente para nos apresentarmos no dia 16 de janeiro. Um mês antes, porém, numa clara manobra do Planalto, passamos a ser acusados de gazeteiros, na versão mais branda das críticas. Muitos de nós – eu inclusive – devolvemos o que recebemos, mas o estrago já estava consumado.

A ceva começa a dar alguns resultados. Mas é preciso lembrar, para corrigir uma lacuna do início deste artigo e, assim, advertir os incautos, que a ceva atrai não só peixes – atrai também jacarés e, neste caso, pobre do pescador...

LUIZ CARLOS HAULY (PSDB-PR) é membro da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados.
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