"Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá" Salmos 37:5
Postado em 28/07/2005
Para evitar uma tragédia maior
 

LUIZ CARLOS HAULY
"Até a poucos dias, nós achávamos que ele não sabia. Mas depois que ele disse que todos os partidos costumam ter essa mesma prática, naquela hora nós ficamos inteiramente convencidos de que o Lula sabe da coisa e não toma as iniciativas que deve tomar." Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito de São Paulo, em 24 de julho de 2005.

Enfrentamos a mais grave crise política desde a redemocratização, há 20 anos. Não bastasse esta credencial, a crise se agrava a cada documento, a cada depoimento concedido à CPI da Corrupção, a principal corte de investigações das denúncias de corrupção do governo Lula.

O último depoimento, concedido por Renilda, esposa do empresário mineiro Marcos Valério – que a esta altura dos fatos dispensa apresentação – envolveu diretamente o Palácio do Planalto. José Dirceu, o homem que gozava da plena confiança do presidente Lula e até há pouco o ministro plenipotenciário da Casa Civil, foi apontado por ela como conhecedor dos empréstimos babilônicos concedidos por duas instituições bancárias ao PT por intermédio de seu marido.

A gravidade da crise e seu previsível aprofundamento oferecem quatro
cenários:

1. que as investigações não cheguem ao presidente, mas enquanto durarem – e tudo indica se arrastarão meses a fio – seu governo continuará refém da suspeita e, por isso, ainda mais inoperante do que nunca;

2. que surjam indícios de envolvimento de Lula, o que poderá levar ao seu impeachment;

3. outra saída para hipótese do comprometimento do presidente é sua renúncia;

4. para evitar os efeitos danosos das três hipóteses anteriores, as eleições, previstas para outubro de 2006, seriam antecipadas para janeiro daquele ano. Este é o desafio que exige uma definição urgente da classe política.

A atual situação política foi definida por um dos mais insuspeitos aliados de Lula e do PT, o coordenador do MST João Pedro Stédile, segundo quem o governo do companheiro simplesmente "acabou". Definição tão taxativa seria considerada "conspiratória" pelo governo se sua fonte fosse alguém da oposição. Independentemente de onde esta definição tenha partido, ela é absolutamente correta. O governo Lula não tem mais vida útil.

O que resta de 2005 será consumido pelas investigações em curso e, na melhor
das hipóteses para o governo, se elas inocentarem o presidente já teremos passado o Carnaval – e aí todas as atenções estarão se voltando para a sucessão presidencial e toda a máquina administrativa, ou o que tiver sobrado dela, será direcionada para que Lula possa conquistar o tão almejado segundo mandato, pela sonhada reeleição.

Até lá, como está a gerência da economia, que já manifesta os primeiros sintomas de desmonte provocados pela crise?

É necessário, pois, preservar o bom desempenho da economia, mas também as
instituições. Vivemos uma crise institucional: o Executivo está paralisado pela necessidade de se defender das suspeitas caudalosas de seu envolvimento com as fraudes e o Legislativo, com a credibilidade mais abalada do que nunca, ironicamente está sendo absorvido quase que inteiramente pela tarefa de investigar o Executivo e naturalmente a si próprio, já que pesam acusações de que vários de seus membros teriam sido beneficiários das fraudes.

"O Brasil não merece o que está acontecendo", disse Lula em sua recente
passagem por Paris, numa de suas frases mais emblemáticas e uma das poucas
proferidas com precisão. O país merecerá e, acima de tudo, suportará o que
está por vir? A resposta é não para a primeira indagação e para a segunda,
certamente não.

A antecipação das eleições é procedimento comum em regimes parlamentaristas e eventualmente utilizado nos presidencialistas em situações extremas. A vizinha Argentina já recorreu a esse expediente duas vezes nos últimos 20 anos.

Vivemos uma situação extrema. Nenhuma das duas possibilidades é animadora:
ou o governo Lula, dando razão ao diagnóstico de Stédile, realmente já morreu ou, na hipótese mais otimista, está agônico. Para que, então, adiar seu sepultamento ou sua agonia terminal?

A antecipação das eleições, acompanhada de uma reforma política que exigisse
fidelidade partidária entre outras exigências, pouparia o país das conseqüências nefastas da morbidez do governo, daria alento aos agentes econômicos e renovaria a esperança – confiscada sem piedade pelo governo Lula – de que a coisa pública possa ser conduzida com ética e eficiência, dois atributos que faltam sistematicamente ao governo e ao partido majoritário, o PT.

Ainda há tempo de evitar uma tragédia maior.

LUIZ CARLOS HAULY (PSDB-PR) é membro da Comissão de Finanças eTributação da Câmara dos Deputados
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